«Estive em Manaus há alguns anos. Levaram-me a visitar uma creche. Naquela creche, quando as crianças chegam, a primeira coisa que acontece é: a directora – uma bióloga de mais de 75 anos de idade – dá a cada uma delas uma semente. Durante um ano cada criança cuida da semente aos seus cuidados até que cresçam e se transformem em mudas. Ao fim do ano é uma festa: a escola inteira vai plantar as mudinhas. Com isso elas aprendem três coisas: a amar as árvores, a trabalhar para que haja mais árvores e que a directora é sua amiga.
Aí fiquei pensando no seu poder. Directores e directoras têm poder… Vocês tem o poder para dizer “sim” e para dizer “não”. Como diz o livro de Eclesiastes: para plantar ou para arrancar o que se plantou. Existe em sociologia um conceito que se chama “outros significativos”. Todas as outras pessoas são “outros”. Mas “outros significativos” são aqueles outros que levo em consideração no que penso e faço.
Directores e directoras, em virtude de sua posição, são tentados a ter como seu outro significativo na burocracia e suas regras. Mas a directora que não é burocrata, que é uma educadora, tem como seus outros significativos as crianças. Por isso ela passa pouco tempo no escritório e muito tempo ouvindo e conversando com as crianças.»
“Directoras”, Rubem Alves
Tags: directoras, rubem alves