Os manuais escolares de língua portuguesa do 4º ano não contribuem para que os alunos compreendam o que lêem. Esta é uma das conclusões do estudo de Maria Regina Rocha que analisou os 12 manuais escolares adoptados por mais de 90% das escolas.
A este propósito reli os textos “Dígrafo”, “Sobre dicionários e necrotérios” e “O prazer da leitura” de Rubem Alves:
“Se o conhecimento científico de anatomia fosse condição para se fazer amor, os professores de anatomia seriam amantes insuperáveis. Se o conhecimento académico da gramática fosse condição para se fazer literatura, os gramáticos seria escritores insuperáveis. Mas essa não é a verdade. Não me consta que o Kama-Sutra tenha sido escrito por um professor de anatomia e não conheço gramático que tenha feito literatura. Na verdade, os gramáticos e os escritores são inimigos irreconciliáveis. Gramática se faz com palavras mortas. Literatura se faz com palavras vivas.
Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintáctica. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos “concertos de leitura“. Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.
Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua.
Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objecto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.”
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