Arquivo de Julho, 2009

Temos de pôr fim a esta escola liofilizada

31 Julho, 2009

“Por tudo o que acabei de dizer só se pode concluir que a instituição escolar que herdamos do Séc. XVIII já não serve as necessidades educativas, já não abarca as missões que lhe estão destinadas, no Séc. XXI. Temos de pôr fim a esta escola liofilizada, frágil, mirrada, que não tem arcaboiço para fazer face aos desafios, aos mandatos, à carga de mandatos (carga esta a rever urgente e politicamente) que sobre ela colocamos.

A tendência geral, porém, não é esta. Pretende-se, equívoco dos equívocos, simplificar a escola, torná-la a escola dos exames, das aulas e das pautas afixadas no fim do ano, a escola fabril, a fábrica de alunos, no exacto momento em que fica claro que a missão da escola tem de se complexificar, porque a instituição educativa escolar já se complexificou e já só falta adaptar a sua organização, os seus intervenientes, as suas relações locais, os seus objectivos, os seus projectos.

Os professores não podem trabalhar mais isolados dentro da escola (esse conceito de sala de aula como caixa negra é algo tétrico e macabro em educação escolar!); a actividade de reflexão em equipa sobre a acção educativa concreta, em cada escola, é um caminho irrecusável de melhoria; os professores também não podem trabalhar sem a cooperação de outros profissionais, dentro e fora da escola (perspectiva interprofissional); os professores precisam de se organizar em torno de movimentos de renovação educacional; a escola não pode trabalhar mais isolada da comunidade local e dos seus recursos educacionais (perspectiva interinstitucional) e as comunidades não podem continuar alheias ou observadoras longínquas das suas instituições educativas escolares.

O tradicional modelo institucional escolar está em crise e em crise profunda. O anacronismo da instituição escolar face aos desafios dos dias de hoje salta à vista.

De nada adianta entrarmos no futuro às arrecuas, a olhar deslumbrados para a escola do passado ou a fazer discursos encantatórios sobre a escola do futuro. Como dizia José Régio: “sei que não vou por aí!”. Temos de mudar a organização, os agentes técnicos, os modos de gestão do tempo, os ritmos de aprendizagem, o exercício profissional isolado, deveremos acabar com esta estúpida uniformização que hoje se pretende continuar a impor às escolas.”

In “Repensar a política para a educação”, Joaquim Azevedo (2009)

A Matriz da Empregabilidade

30 Julho, 2009

skillsbusSkills for Business publicou “A Skills Tollkit for Employers” que inclui a Matriz da Empregabilidade, uma checklist que os empregadores podem utilizar para identificar as competências que os seus trabalhadores necessitam para realizar o seu trabalho.

A Matriz pode ser utilizada, também, pelos trabalhadores que desejem fazer o seu balanço de competências de empregabilidade e pelas entidades de educação e formação que desenvolvem formação para a empregabilidade.

A publicação inclui, ainda, formulários para realizar o diagnóstico de necessidades de formação para a empregabilidade.

Há educação de adultos para além dos cursos EFA

29 Julho, 2009

A exposição mediática actual que gozam os quase 500 centros Novas Oportunidades, bem como a filosofia de ver nesses centros a porta de entrada para todos os adultos que desejam beneficiar das ofertas públicas de educação de adultos, trouxe-nos outro tipo de consequências. Para o «público» a educação de adultos É a certificação das competências; para o «público» a educação de adultos É cursos EFA. E o resto é silêncio.

Os 500 novos Centros NO trazem uma quantidade apreciável nova de empregos. E isto, no cenário actual de crise é, claro está, uma excelente notícia. O problema é que muitos destes empregos são ocupados por agentes educativos que não entendem os princípios básicos da educação de adultos, não lhe conhecem a história, nem em Portugal nem fora dele, escolarizam-na até ao tutano e desconhecem as suas práticas mais queridas. Não, há, assim, nenhuma evolução positiva no campo. Há, sim, hoje como no passado, a subjugação das instituições e dos actores que mais conhecem, em Portugal, a educação de adultos, e a sua substituição por outros actores e instituições, que perseguem outras finalidades, com uma filosofia diferente e com práticas diversas e confusas.

In “Os consensos do momento”, António Fragoso

Governo Inglês abre as portas dos edifícios públicos a todos os adultos interessados em aprender

28 Julho, 2009

learningrevolutionO Livro Branco “A Revolução da Aprendizagem” (The Learning Revolution) foi lançado no dia 23 de Março último, contendo a estratégia do governo inglês no domínio da educação informal.

De acordo com a nova estratégia, e seguindo a linha adoptada há muitas décadas pelo governo sueco, as pessoas que queiram organizar os seus próprios grupos e as suas próprias turmas receberão apoio público.

Ao abrigo desta campanha nacional para a aprendizagem, edifícios públicos e privados por todo o país passarão a abrir as suas portas a todos os adultos interessados em aprender, à noite e aos fins-de-semana: desde “pubs”, lojas, cafés e igrejas até locais de trabalho, bibliotecas e galerias de arte. Os edifícios serão identificados com o logo “Learning Revolution”, prevendo-se a disponibilidade a médio prazo de cerca de 7.000 salas.

Fonte ”O Direito de Aprender

O que falta no RVCC 12º ano?

27 Julho, 2009

De facto, a “invenção” dos centros para reconhecimento e validação das aprendizagens informais e não-formais deveu-se, antes de mais, à vontade de motivar e de reforçar a confiança das pessoas adultas para entrarem num percurso vitalício de desenvolvimento pessoal, com as consequentes implicações de natureza cultural, social, profissional e cívica.

Ora, em especial no que se refere ao nível secundário, onde não é possível em regra uma rápida certificação e se exigem complementos de formação, mais ou menos longos, mais ou menos diversificados, é ainda carente ou inadequada a oferta existente. Falta uma das peças do “puzzle”, já esboçada no Documento elaborado há 10 anos: a “Tele-Educação de Adultos”, assente numa combinação de ensino a distância e de tutores de proximidade.

E falta igualmente, como vector essencial para assegurar o equilíbrio, instável mas criativo, entre tendências centralistas e descentralizadoras no campo da educação-formação de adultos em Portugal, uma organização não-governamental que, à escala nacional, possa reunir e representar as organizações e os agentes, hoje já bastante numerosos, experimentados e conhecedores.

Acredito que este nosso Sector está a atingir um patamar de consolidação e maturação, e simultaneamente de exigência de reflexão e reavaliação, que justifica e reclama que seja dado um salto qualitativo em direcção a uma plataforma nacional capaz de promover o encontro de experiências e opiniões entre os intervenientes, de dialogar com os poderes públicos no sentido de aperfeiçoar programas e práticas e de representar o país, quer em projectos transnacionais quer em redes e assembleias europeias ou mundiais.

In”A Nova Educação-Formação de Adultos em Portugal pede uma organização nova”, Alberto Melo

O sistema de educação não pode ser reformado – vídeo

26 Julho, 2009

“Não podemos reformar o sistema de ensino público, nós precisamos de substituí-lo completamente”, Bill Gates

Aprendizagem por Projecto no ensino superior

25 Julho, 2009

“Os alunos sublinharam também o aumento da motivação para a aprendizagem dos conteúdos das respectivas disciplinas e para o trabalho contínuo durante o semestre. Vários alunos referiram-se à mudança do ritmo do trabalho que se tornou mais equilibrado durante o semestre, embora ainda existam algumas fases em que se acumularam vários prazos de entrega de trabalhos e de testes.

Os problemas de relacionamento entre elementos do grupo e seus naturais conflitos foram registados pela maioria dos alunos mas de forma diferente. Uns viram isso como uma desvantagem e outros como uma valiosa aprendizagem.”

In “Ensino/Aprendizagem por Projecto: Balanço de uma experiência na Universidade do Minho

O tradicional levantamento de necessidades de formação é insuficiente

24 Julho, 2009

“As acções tradicionais de Levantamento das Necessidades de Treinamento – LNT, têm se mostrado insuficiente para atender as expectativas das empresas no terceiro milénio. Basicamente, o antigo formato do LNT consta de uma acção do superior de uma equipe para analisar as pessoas individualmente e relacionar as acções de treinamento que considerar serem necessárias. Essa forma faz com que a empresa fique exposta a critérios pouco objectivos e não ter o melhor retorno de investimento, o que é incompatível com a eficiência que as organizações precisam ter para permanecerem no mercado.”

In “Por que utilizar a avaliação de desempenho com foco em competências?”, Patrícia Bispo

Os melhores professores são aqueles que conseguem libertar-se das agruras da sala de aula

23 Julho, 2009

Sabemos que educar pressupõe relação, estar com. Porém, subsiste um paradoxo: quanto mais longe o educador estiver da relação, da prática de sala de aula, maior salário aufere e mais elevado estatuto social parece deter. Beneficia de subsídios de função, de abonos, remuneração de “cargo superior”.

Estou crente de que, se cargos “superiores” houvesse, o mais elevado deveria ser o trabalhar com crianças. Porém, no sistema implantado, apenas as castas mais puras podem aspirar a aproximar-se dos deuses… As deserções para funções ditas “superiores” são tantas, que parece que os melhores professores são aqueles que conseguem libertar-se das agruras da sala de aula. O sistema de castas infectou a profissão docente.

In “As castas”, José Pacheco

O valor social dos certificados RVCC

22 Julho, 2009

A massificação do sistema de “reconhecimento de adquiridos” por via de uma lógica política que procura, assim, resolver o problema da qualificação dos recursos humanos provoca dois desvios. Por um lado, os públicos-alvo deixam de ser apenas adultos com significativa experiência pessoal e profissional, alargando-se a toda a população. Ora nem todos os adultos, e menos ainda os jovens, deveriam ter acesso aos dispositivos de RVCC. São dispositivos inadequados para muitas situações. Olhar para os RVCC como no passado se olhou para as “campanhas de alfabetização”, vendo-os como a solução mágica para resolver o “atraso educacional português”, seria a mais perigosa das ilusões. Por outro lado, uma abertura excessiva, sem as devidas precauções, pode provocar a desfiguração de processos que são de uma grande fragilidade, designadamente do ponto de vista da sua credibilidade social.

Há um risco grande, bem conhecido dos historiadores da educação, de provocar a depreciação do valor social dos diplomas, prometendo aos menos qualificados a recompensa de um diploma que, no momento em que é alcançado, já é de pouca valia. Compreende-se, e aplaude-se, a vontade política de enfrentar uma das realidades mais dramáticas do país: os níveis baixíssimos de qualificação escolar e profissional dos portugueses. Mas qualquer tentação de resolver o problema através de expedientes administrativos pagar-se-á muito caro no futuro.

O “reconhecimento dos adquiridos” só faz sentido no âmbito de uma lógica de formação. Não se trata de reconhecer a experiência para combater a subcertificação ou para passar um diploma, mas sim para compreender de que modo ela se pode constituir em suporte da formação. É preciso evitar discursos e práticas que tendem a desvalorizar este princípio. Permita-me que cite, pela negativa, uma resposta dada o ano passado pelo Coordenador do Plano Tecnológico à seguinte pergunta: “Como será feita a requalificação das pessoas?” Responde Carlos Zorrinho: “As pessoas que têm qualificação inferior serão objecto de uma identificação daquilo que foram adquirindo ao longo da vida em competências. Essas competências são certificadas e é-lhes dada uma equivalência ao 9º ano ou ao 12º ano. Foi feito, por exemplo, um acordo com a Portugal Telecom no sentido de todos os seus trabalhadores terem o 12º ano ou equivalente. É um exemplo que será introduzido na Administração Pública” [sic]. Este tipo de afirmações é perigoso. Dá um sinal errado às pessoas.

O problema do referencial do 12º ano está ainda mal resolvido. Por um lado, foi lançado num momento muito marcado pelo desejo de aumentar a escolaridade – pelo menos de aumentar as estatísticas da escolaridade –, com o reforço da qualificação escolar e profissional a tornar-se, e bem, num dos principais objectivos do Governo. A este propósito, é necessário dizer que o recurso aos RVCC não deve ser utilizado pelos jovens e, muito menos, para resolver problemas de insucesso e de abandono escolar. Nestes casos, importa encontrar modelos alternativos de escolaridade, não remetendo o assunto, numa retórica de “novas oportunidades”, para sistemas de RVCC. O “reconhecimento de adquiridos” deve estar reservado a pessoas com uma experiência de vida significativa e não pode ser utilizado como um expediente para resolver as insuficiências e incapacidades da escola. Mesmo no que diz respeito aos “maiores de 23 anos” que querem realizar estudos superiores é preferível que a creditação da experiência profissional seja feita já na universidade. Deste modo, marca-se claramente que este processo se destina a prosseguir estudos, concretizando, simultaneamente, uma abertura da universidade aos públicos adultos, às suas necessidades e projectos.

In “É preciso manter uma vigilância crítica sobre o reconhecimento de adquiridos”, entrevista a António Nóvoa


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