“O direito à cultura e ao conhecimento ainda não chegou ao sentimento da população portuguesa. Que esse direito existe e que cada português deveria vê-lo para si cumprido – todos o sentem, mas como parte do que idealmente lhes é devido pela justiça (que, aí, nunca se cumpre). Essa aspiração não é, pois, uma exigência tão evidente para os portugueses que estes, iliteratos e analfabetos, saiam para a rua em manifestação pelo direito à cultura.
Porquê? Porque o 25 de Abril não conseguiu abolir a divisão instruído/sem instrução que correspondia mais ou menos ao par poder-saber/pobreza-ignorância do tempo do salazarismo.
Porque na sociedade portuguesa actual, o medo, a reverência, o respeito temeroso, a passividade perante as instituições e os homens supostos de deterem e dispensarem o poder-saber não foram ainda quebradas por novas forças de expressão da liberdade.
Numa palavra, o Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo. É o medo que impede a crítica. Vivemos numa sociedade sem espírito crítico – que só nasce quando o interesse da comunidade prevalece sobre o dos grupos e das pessoas privadas.
Não há investigação, avanço no domínio científico sem discussão, trocas de ideias, imaginação sem entraves, elaboração livre de modelos, etc. O que supõe necessariamente liberdade de pensamento, de trabalho e de opinião – tudo o que a ditadura reprime por princípio.”
In “Portugal, Hoje – O Medo de Existir”, José Gil