Arquivos para a Categoria ‘18 Citações’

Uma profissão é uma ordem religiosa

6 Agosto, 2008

Entregar-se a uma profissão é igual a entrar para uma ordem religiosa. Os religiosos, por amor a Deus, fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Pois, no momento em que você escrever a palavra fatídica no espaço em branco, você estará fazendo também os seus votos de dedicação total á sua ordem. Cada profissão é uma ordem religiosa, com seus papas, bispos, catecismos, pecados e inquisições.

Se você disser que a decisão não é tão séria assim, que o que está em jogo é só o aprendizado de um ofício para se ganhar a vida e, possivelmente, ficar rico, eu posso até dizer: “Tudo bem! Só que fico com dó de você! Pois não existe coisa mais chata que trabalhar só para ganhar dinheiro.”

In “Muito cedo para decidir”, Rubem Alves

Liberdade de pensamento, de trabalho e de opinião

25 Abril, 2008

“O direito à cultura e ao conhecimento ainda não chegou ao sentimento da população portuguesa. Que esse direito existe e que cada português deveria vê-lo para si cumprido – todos o sentem, mas como parte do que idealmente lhes é devido pela justiça (que, aí, nunca se cumpre). Essa aspiração não é, pois, uma exigência tão evidente para os portugueses que estes, iliteratos e analfabetos, saiam para a rua em manifestação pelo direito à cultura.

Porquê? Porque o 25 de Abril não conseguiu abolir a divisão instruído/sem instrução que correspondia mais ou menos ao par poder-saber/pobreza-ignorância do tempo do salazarismo.

Porque na sociedade portuguesa actual, o medo, a reverência, o respeito temeroso, a passividade perante as instituições e os homens supostos de deterem e dispensarem o poder-saber não foram ainda quebradas por novas forças de expressão da liberdade.

Numa palavra, o Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo. É o medo que impede a crítica. Vivemos numa sociedade sem espírito crítico – que só nasce quando o interesse da comunidade prevalece sobre o dos grupos e das pessoas privadas.

Não há investigação, avanço no domínio científico sem discussão, trocas de ideias, imaginação sem entraves, elaboração livre de modelos, etc. O que supõe necessariamente liberdade de pensamento, de trabalho e de opinião – tudo o que a ditadura reprime por princípio.”

In “Portugal, Hoje – O Medo de Existir”, José Gil

O Currículo é determinado pela vida

12 Abril, 2008

“Cada professor, ao tentar ensinar qualquer coisa, deveria se fazer esta pergunta: “Qual é a função prática do que estou ensinando, para o momento da vida do aluno à minha frente?” Já imaginou um professor ensinando aos beduínos no deserto a arte de fazer iglus? Ou a arte da pesca? E que dizer de um professor que ensinasse aos moradores das montanhas a arte de navegar?

Anote isso: o corpo não aceita programas de saberes logicamente organizados abstractamente, que não estejam relacionados com o desafio da construção das suas casas. Claro: para os navegadores, seus barcos e o mar são parte da sua casa. Para os que trabalham o solo, suas ferramentas, as sementes e as pragas são parte de sua casa. Para os pintores, as tintas e os pincéis são parte da sua casa. Para quem está doente, o conhecimento do corpo e das poções medicinais são parte da sua casa.

Em resumo: o currículo é determinado pela vida, pelos desafios que se encontram no momento, dados pelo ambiente - os alemães usam a palavra “Umwelt” para designar isso. “Um” quer dizer “ao redor”. E “Welt” quer dizer mundo. “Umwelt” = o mundo ao redor.”

Animais de corpo mole”, de Rubem Alves

A Educação na 4ª Vaga de Tofler

27 Fevereiro, 2008

tofler.jpgNa abertura do III Congresso da Ordem dos Biólogos Alvin Toffler falou de Bioeconomia: a 4ª Vaga, tendo referido que os “baby boomers” portugueses do século XXI “Terão de estudar diferentes cursos ao longo das várias etapas da vida“.

Referiu também que “não há segredos curriculares e, por isso, cada um deverá seguir o seu talento a aplicar a fundo as suas capacidades“, que “nada permanecerá, os cursos serão redesenhados, para serem mais individualizados” e que “aceitando que já não se pode realizar o mesmo trabalho toda a vida, a questão é saber quantos cursos estamos dispostos a tirar“.

Manuais escolares de Português com nota negativa

8 Janeiro, 2008

Os manuais escolares de língua portuguesa do 4º ano não contribuem para que os alunos compreendam o que lêem. Esta é uma das conclusões do estudo de Maria Regina Rocha que analisou os 12 manuais escolares adoptados por mais de 90% das escolas.

A este propósito reli os textos “Dígrafo”, “Sobre dicionários e necrotérios” e “O prazer da leitura” de Rubem Alves:

“Se o conhecimento científico de anatomia fosse condição para se fazer amor, os professores de anatomia seriam amantes insuperáveis. Se o conhecimento académico da gramática fosse condição para se fazer literatura, os gramáticos seria escritores insuperáveis. Mas essa não é a verdade. Não me consta que o Kama-Sutra tenha sido escrito por um professor de anatomia e não conheço gramático que tenha feito literatura. Na verdade, os gramáticos e os escritores são inimigos irreconciliáveis. Gramática se faz com palavras mortas. Literatura se faz com palavras vivas.

Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintáctica. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.

Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos “concertos de leitura“. Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler.

Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua.

Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objecto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.”

Feliz Ano Novo… Professor

1 Janeiro, 2008

O PROFESSOR ESTÁ SEMPRE ERRADO

Quando…
É jovem, não tem experiência
É velho, está superado
Não tem automóvel, é um coitado
Tem automóvel, chora de “barriga cheia”
Fala em voz alta, vive gritando
Fala em tom normal, ninguém escuta
Não falta às aulas, é um “Caxias”
Precisa faltar, é um turista
Conversa com os outros, professores está “malhando” os alunos
Não conversa, é um desligado
Dá muita matéria, não tem dó dos alunos
Dá pouca matéria, não prepara os alunos
Brinca com a turma, é metido a engraçado
Não brinca com a turma, é um chato
Chama à atenção, é um grosso
Não chama à atenção, não sabe se impor
A prova é longa, não dá tempo de fazer
A prova é curta, tira as chances do aluno
Escreve muito, não explica
Explica muito, o caderno não tem nada
Fala correctamente, ninguém entende
Fala a linguagem do aluno, não tem vocabulário
Exige, é rude
Elogia, é debochado
O aluno é reprovado, é perseguição
O aluno é aprovado, “deu mole”
É, o professor está sempre errado, mas…
se você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!

Fonte: Revista do professor de Matemática 36, 1988