Posts Tagged ‘rubem alves’

Para triunfar tive de matar a escola dentro de mim

19 Dezembro, 2008

Alves - Agora, na maldade psicanalítica, é uma espécie de vingança, não é não? Eu já tive essa experiência, quer dizer: eu fracassei, mas, vejam, agora, eu triunfei a despeito de vocês. Psicanaliticamente falando, é uma forma de a gente exercer uma vingança de uma maneira inversa: Não precisei da escola para fazer o que faço.


Dimenstein - Pior do que não precisar, tive de matar a escola dentro de mim — como você tem de matar o seu pai para poder crescer.


Alves - É impossível acompanhar todos os conhecimentos. Por isso, é inútil armazenar conhecimentos que vão estar velhos dentro de dois anos. É no momento que sou desafiado que devo procurar o conhecimento e não simplesmente um arquivo que eu trago comigo. Essa coisa de aprender a procurar. Os professores ensinam saberes. Dão a matéria.

In “Fomos Maus Alunos“, de Gilberto Dimenstein e Rubem Alves

Porque não mudam as escolas?

10 Dezembro, 2008

ÉpocaEntão, por que as escolas não mudam?

Alves - Por uma porção de factores. Um deles é a inércia. As pessoas se acostumam a fazer sempre a mesma coisa porque aí elas não têm trabalho. Se você tiver uma escola mais solta, nunca sabe direito o que vai acontecer, você não pode preparar a lição porque sempre o aluno pode fazer uma pergunta que você não sabe. Na escola tradicional, o professor é aquele que sabe a matéria e vai para a sala de aula acreditando nisso.

Mas hoje as matérias estão todas na internet. Hoje, a função do professor é ensinar o aluno a pensar e a descobrir onde ele pode encontrar a resposta para as perguntas que ele tem. Essa é uma função nova e completamente diferente do professor. Os que estão acostumados a preparar a aula até costumam usar as fichas do ano retrasado. Dificilmente vão mudar.

Entrevista “Aprender para quê?” a Rubem Alves

Alegria ao entrar na universidade e tristeza ao sair

12 Novembro, 2008

Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem dizer: “Deixei o cursinho. Estou na universidade”.

Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem. Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.

O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e sujas.

Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas pelas universidades.

Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.

Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes maior que o número de empregos.

In “Diploma não é solução”, Rubem Alves

Ser professor é muito chato

29 Outubro, 2008

”Às vezes vejo os professores como os guias turísticos que vão todos os dias ao mesmo monumento, levando um grupo diferente e repetindo as mesmas palavras. Isso é muito chato. Nenhuma pessoa merece viver uma vida desse jeito”, Rubem Alves

O acesso à universidade deveria ser por sorteio

23 Outubro, 2008

ÉPOCA – O senhor chegou a pregar o fim do vestibular. Por quê?

Alves – Já preguei, e quando falo nisso as pessoas acham que estou brincando. Quando eu era pró-reitor de graduação da Unicamp, queria um vestibular que avaliasse a capacidade de pensar dos alunos, e não a memória. Um professor me disse: a solução mais fácil é o sorteio. Dei uma gargalhada. Mas comecei a pensar e vi que é isso mesmo. A primeira coisa do vestibular que me morde não é decidir quem entra ou não na universidade, mas a sombra sinistra que ele lança sobre tudo o que vem antes. As escolas são orientadas para o vestibular, e os pais logo de saída querem as escolas fortes para os filhos passarem no vestibular. A primeira consequência de ter o sorteio é que as escolas seriam livres para ensinar. Elas não precisariam preparar os alunos para o vestibular. Então, as pessoas poderiam ouvir música, ler e fazer o que quisessem. Seria a libertação das escolas para realmente ensinar. Em segundo lugar, acabariam os cursinhos. Se tiver sorteio, ninguém pode reclamar. Sorteio é sorteio. Acabaria o sofrimento psicológico dos alunos, que têm a auto-imagem destruída. Também acabaria o conflito entre pais e filhos.

ÉPOCA – Mas um vestibular por sorteio poderia ter muita injustiça?

Alves – Várias pessoas me dizem isso. Claro que poderia, mas não do tamanho da injustiça que existe no actual sistema de vestibular, que nada mais é que uma grande perda de tempo, de dinheiro, de inteligência e de conhecimento. Também me perguntam se qualquer aluno, sem o menor preparo, poderia entrar na universidade. Respondo que não. Haveria no final do ensino médio um exame no país inteiro para verificar se os alunos atingiram um ponto mínimo exigido. E não seria classificatório. Quem passasse poderia participar do sorteio. Quem fosse reprovado poderia refazer a prova depois.

Entrevista à Época de Rubem Alves

Uma profissão é uma ordem religiosa

6 Agosto, 2008

Entregar-se a uma profissão é igual a entrar para uma ordem religiosa. Os religiosos, por amor a Deus, fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Pois, no momento em que você escrever a palavra fatídica no espaço em branco, você estará fazendo também os seus votos de dedicação total á sua ordem. Cada profissão é uma ordem religiosa, com seus papas, bispos, catecismos, pecados e inquisições.

Se você disser que a decisão não é tão séria assim, que o que está em jogo é só o aprendizado de um ofício para se ganhar a vida e, possivelmente, ficar rico, eu posso até dizer: “Tudo bem! Só que fico com dó de você! Pois não existe coisa mais chata que trabalhar só para ganhar dinheiro.”

In “Muito cedo para decidir”, Rubem Alves

Uma história sobre a separação no Dia da Criança

1 Junho, 2008

“Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.

Tudo se enche com a presença de uma ausência.

Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…

Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…

Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.

Esta história, eu não a inventei.

Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.

Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.

É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.

Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.

Claro que são para crianças.

Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…”

In “A menina e o pássaro encantado” do livro “As mais belas histórias” de Rubem Alves.

A escola é chata

13 Maio, 2008

“Não é de hoje que a escola é chata. Ela sempre foi assim e isso acontece porque as coisas são impostas às crianças. A prova de que uma criança gosta de ir à escola é se, na hora do recreio, ela está conversando com os amigos sobre as coisas que a professora ensinou. E não se vê isso. Então fica evidente que elas gostam da escola por causa da sociabilidade, dos amiguinhos, por causa do recreio. Mas elas não estão interessadas naquilo que se ensina na escola. Você acha que um adolescente, vivendo na periferia, pode ter interesse em dígrafos (grupo de duas letras usadas para representar um único fonema)? Não tem interesse nenhum.

Existe outra expressão terrível: grade curricular. Já brinquei que deve ter sido cunhada por um carcereiro. A criança está vivenciando problemas que não têm nada a ver com os assuntos das aulas. Mas os professores apenas se justificam, dizendo que o programa afirma que é aquilo que se deve ensinar e acabou. Eu diria que na escola tradicional não se leva em consideração o desejo de aprender da criança. Elas expressam isso através dos questionamentos que fazem.”

In “Aprender para quê?”, Rubem Alves

O Currículo é determinado pela vida

12 Abril, 2008

“Cada professor, ao tentar ensinar qualquer coisa, deveria se fazer esta pergunta: “Qual é a função prática do que estou ensinando, para o momento da vida do aluno à minha frente?” Já imaginou um professor ensinando aos beduínos no deserto a arte de fazer iglus? Ou a arte da pesca? E que dizer de um professor que ensinasse aos moradores das montanhas a arte de navegar?

Anote isso: o corpo não aceita programas de saberes logicamente organizados abstractamente, que não estejam relacionados com o desafio da construção das suas casas. Claro: para os navegadores, seus barcos e o mar são parte da sua casa. Para os que trabalham o solo, suas ferramentas, as sementes e as pragas são parte de sua casa. Para os pintores, as tintas e os pincéis são parte da sua casa. Para quem está doente, o conhecimento do corpo e das poções medicinais são parte da sua casa.

Em resumo: o currículo é determinado pela vida, pelos desafios que se encontram no momento, dados pelo ambiente – os alemães usam a palavra “Umwelt” para designar isso. “Um” quer dizer “ao redor”. E “Welt” quer dizer mundo. “Umwelt” = o mundo ao redor.”

Animais de corpo mole”, de Rubem Alves

O principal objectivo da educação é produzir fome

21 Março, 2008

educare.jpgNa sua opinião, quais são os principais problemas do ensino actual e por onde passa a sua solução?

RUBEM ALVES: Julgo que, em qualquer parte do mundo, o problema mais importante da educação tem a ver com os professores. O que faz um educador não é o seu domínio de conteúdos de conhecimento, mas a sua capacidade para seduzir os alunos para o assombro do mundo, para provocar os seus sonhos e a sua curiosidade. Os seres humanos aprenderam a pensar para realizar os seus sonhos, por mais modestos que fossem. O conhecimento é a ponte que a inteligência constrói entre o desejo e o objecto desejado. Tem, portanto, que haver um objecto desejado para que a inteligência se ponha a funcionar, pois inteligência sem desejo não funciona.

A poetisa brasileira Adélia Prado escreveu: “Não quero faca nem queijo, quero é fome“. O principal objectivo da educação é produzir fome. Porque tendo faca e queijo e não tendo fome, o queijo não é comido. Mas tendo fome e não havendo queijo, o faminto descobre uma maneira de conseguir o queijo…

Entrevista de EDUCARE.PT a Rubem Alves


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