O medo de errar

“Se voltasse atrás voltaria a fazer tudo da mesma maneira”. Ao longo da minha vida ouvi, com alguma frequência, esta afirmação. A frase soou-me, sempre, estranha. Ficava com a impressão que eram pessoas à prova de erros: Não cometo erros. Tudo o que fiz foi bem feito. Em síntese, a mensagem implícita soava uma verdade absoluta: o erro é mau, é uma vergonha errar.

Em geral, sempre que ouvia tal afirmação parecia um aviso ameaçador “se erras, és mau profissional”. No entanto, apesar do incómodo que causa a possibilidade de podermos ser acusados de incompetência, até agora, nunca tinha parado para reflectir sobre o assunto. Curiosamente, esta reflexão surgiu-me ao ler “Como Decidimos” de Jonah Lehrer, um livro de leitura obrigatória para pais e professores, na medida em que ajuda a compreender melhor o modo como os nossos filhos ou alunos tomam, naturalmente, más decisões e como os podemos ajudar a melhorar essas decisões. Correndo o risco de ser redutor, num assunto de tão grande complexidade, vou abordar a questão do erro à luz da reflexão suscitada pelas incríveis experiências descritas no livro.

Uma das mais famosas experiências foi efectuada pela psicóloga Carol Dweck que “passou décadas a demonstrar que um dos ingredientes cruciais da educação bem-sucedida reside na capacidade de aprender com os erros”. O estudo foi realizado com mais de 400 alunos do 5º ano de 12 escolas de Nova Iorque. Numa primeira fase, os alunos resolveram um teste fácil constituído por uma série de puzzles não verbais. No final, os investigadores da equipa de Dweck informaram individualmente os alunos da pontuação obtida e proferiam uma frase de elogio. Metade dos alunos foi elogiada pela sua inteligência, “deves ser bom/boa nisto”. A outra metade foi elogiada pelo seu esforço, “deves ter-te aplicado muito”.

Numa segunda fase, os alunos escolheram entre resolver um teste fácil, idêntico ao que tinham acabado de fazer, e um teste mais difícil, concebido para alunos do 8º ano, que os investigadores apresentaram como uma excelente oportunidade de aprendizagem. Os resultados foram surpreendentes. Os alunos elogiados pela sua inteligência escolheram o teste fácil e os alunos elogiados pelo seu esforço escolheram o teste mais difícil. Segundo Dweck, o elogio da inteligência passou a mensagem “pareçam espertos e não se arrisquem a cometer erros”. Pelo contrário, o elogio do esforço passou a mensagem “comparem-se com os melhores, aprendam com os erros e façam melhor”. Após a realização do teste escolhido, cada aluno tinha de optar entre observar os resultados dos colegas que tinham obtido pontuações superiores à sua ou, em alternativa, dos colegas que tinham obtido pontuações inferiores à sua. Curiosamente, os “esforçados” optaram por observar os testes com pontuações mais elevadas e os “inteligentes” optaram por observar os testes com pontuações inferiores. O elogio da inteligência teve o efeito de encorajar os alunos a evitar o fracasso e a reforçar a sua auto-estima comparando-se com os colegas com pontuações inferiores. Dweck não hesita em concluir que “o medo do fracasso inibe, de facto, a aprendizagem”.

Na terceira fase, os alunos resolveram um teste final com o mesmo nível de dificuldade do teste inicial. Mais uma vez, os resultados foram surpreendentes. O impacto nos resultados de uma simples frase de elogio fala por si. Os alunos “inteligentes” pioraram os resultados do teste em 20% e os alunos “esforçados” melhoraram em 30%.

Para os investigadores, estes resultados são conclusivos e aplicam-se a todos e não apenas aos jovens estudantes. O erro é um “instrumento pedagógico essencial mas, infelizmente, ensina-se o contrário às crianças, muitas vezes. Em vez de se elogiarem os alunos por se esforçarem duramente, os professores costumam elogia-los pela sua inteligência inata.” Contudo, as pesquisas mostram que o erro é bom, é uma fonte de aprendizagem, um alicerce do conhecimento. Lehrer recorre à neurociência para explicar “antes que os neurónios sejam bem sucedidos, têm de falhar muitas vezes”.

Como pais ou professores, não podemos deixar de reflectir sobre estas questões: Como elogio os meus filhos (alunos)? O que devo fazer para os meus filhos (alunos) perderem o medo de errar? Convém lembrar que “a forma mais eficaz de melhorar reside em concentrarmo-nos nos próprios erros”. Para Bill Robertie, famoso campeão de xadrez, gamão e póquer, o segredo é voltar atrás, aprender com os erros e jogar melhor. Para se tornar num dos melhores, Robertie analisa exaustivamente todos os erros dos jogos que faz pois acredita que a auto-crítica é a chave para atingir a excelência. O seu objectivo é atingido quando constata: “soube que estava a ficar perito quando me bastava observar um tabuleiro para saber o movimento a executar”. Do mesmo modo, também José Mourinho analisa exaustivamente todos os jogos da sua equipa para aprender com os erros e desenvolver a capacidade de olhar para o campo e tomar, intuitivamente, as melhores decisões.

Neste contexto, parece licito concluir que as pessoas com uma vida isenta de erros, que proclamam aos quatro ventos “voltaria a fazer tudo da mesma maneira”, pura e simplesmente, não aprenderam ao longo da sua vida. Neste caso, não é de estranhar que tendam a cometer os mesmos erros, repetidamente. Errare humanum est (errar é humano). Não aprender com os erros é desprezar oportunidades de aprendizagem de elevado potencial.

Se, de facto, queremos transmitir, orgulhosamente, uma imagem de grandes “mestres” temos de aprender, arduamente, com os erros. Temos de escutar, atentamente, Niels Bohr, “um perito é uma pessoa que cometeu todos os erros que podem ser cometidos num campo muito estreito”. O lema a seguir é “tenho de voltar atrás e fazer tudo melhor”.

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