A miopia do empreendedorismo

Nos últimos anos muito se tem falado, escrito e, sobretudo, discursado sobre as virtudes do empreendedorismo. Na União Europeia o tema é, quase, uma obsessão. Quem promove as virtudes está “in”. Quem não foi contagiado pela febre do empreendedorismo está, definitivamente, “out”. Como bons alunos da Europa, em Portugal o empreendedorismo é, também, uma prioridade nacional.

Basta uma consulta no Google para ter uma ideia da miríade de projectos realizados por todo o país, assim como da diversidade de feiras e eventos para promover o empreendedorismo. A obsessão é tal que até é prescrito como panaceia para resolver o aumento dramático do desemprego. As promessas de cura milagrosa, que muitos apregoam, levam a pensar que estamos perante verdadeiros “curandeiros do empreendedorismo”.

Para compreender melhor este fenómeno é necessário analisar o primeiro pecado capital do empreendedorismo: a miopia. Alguém acredita que todos temos capacidade para cantar? Quem vê o programa televisivo Ídolos facilmente percebe que a esmagadora maioria dos candidatos não tem os requisitos mínimos para fazer carreira na música e ganhar a vida como cantor. Mesmo que gastem rios de dinheiro nas melhores escolas do mundo, estas nunca conseguirão dotá-los das capacidades que fazem os grandes cantores. O que temos visto nos Ídolos, e mais recentemente no “Achas que sabes dançar”, é que aqueles que têm talento rapidamente se destacam da multidão. Como escreveu Rubem Alves, um bom pianista não precisa de fazer força para tocar pois tem o piano dentro dele, desde o nascimento. Quem, como eu, não nasceu com o piano dentro, cedo descobre que o piano nunca passará de uma prótese. Nunca conseguirá colocar para fora um piano que não existe. Mais, nenhuma prótese resolverá a falta de talento.

Noutras áreas, como no desporto, acontece o mesmo. A estratégia dos grandes clubes de futebol é identificar talentos nas camadas mais jovens e desenvolve-los para se tornarem profissionais de excelência, como aconteceu com Cristiano Ronaldo. Também no ensino, em especial nas grandes escolas de artes e universidades de prestígio, o processo de selecção dos alunos visa seleccionar os que têm talento.

Se, regra geral, o talento é o ingrediente base, então porque nos tentam fazer crer que, no que toca ao empreendedorismo, não é preciso talento? Todos podemos ser empreendedores. Todos temos talento para criar empresas, criar riqueza e alcançar o sucesso. Será que os “curandeiros do empreendedorismo” acreditam mesmo em tamanha mentira ou sofrem, pura e simplesmente, de miopia, uma doença que lhes permite ver com nitidez as vantagens do empreendedorismo mas os impede de enxergarem as suas inúmeras desvantagens, o que pode ter efeitos extremamente nefastos.

Por outro lado, a promoção de empreendedorismo assenta na noção de que a realização pessoal está estreitamente ligada à ideia de criar uma empresa. Atingir a realização profissional a trabalhar por conta de outrem é um cenário que os arautos do empreendedorismo nem colocam. Assim, não é de estranhar que cresça na sociedade contemporânea a tendência para endeusar os empresários de sucesso, enaltecer as suas características empreendedoras e apontá-los como os exemplos a seguir.

O problema é que esses arautos omitem, deliberadamente, a outra face (negra) do empreendedorismo. Há um silêncio ensurdecedor sobre as falências, que constituem uma maioria absoluta, e os inúmeros suicídios dos empreendedores mal sucedidos. Verdade seja dita, para Alain de Botton, “a possibilidade de se chegar hoje em dia ao pináculo da sociedade capitalista é tão só marginalmente maior do que as hipóteses de se ser aceite no seio da nobreza francesa de há quatro séculos”. Segundo este famoso filósofo, o campo do empreendedorismo requer “uma síntese de imaginação e realismo dolorosamente invulgar” ou, por outras palavras, de um talento invulgarmente raro. “Qualquer idiota pode ter uma boa ideia, mas apenas algumas mentes brilhantes possuem a capacidade para estabelecer um negócio lucrativo”.

Para o comprovar, Botton refere o exemplo paradigmático de um investidor de risco que analisa anualmente 2.000 projectos para decidir investir em 10. Destes, ao fim de 5 anos, 4 já faliram, 4 estão no “ciclo de cemitério” e apenas 2 geram lucros significativos. O resultado de 0,1% de taxa de sucesso fala por si. A lição é evidente: não podemos promover o empreendedorismo, recorrendo ao exemplo de meia dúzia de empreendedores de sucesso, que são uma minoria residual, e “vender a ilusão” de que todos podemos empreender com o mesmo sucesso.

Neste contexto, a pergunta óbvia é: então, porque incentivamos milhares de pessoas sem talento a criar o seu negócio? Porque encorajamos essas pessoas a não desistir e os financiamos para se atirarem do “penhasco das realizações empresariais”, quando é evidente que cairão no fundo? Para quem tiver dúvidas, uma breve leitura dos planos de negócio dos novos empreendedores será suficiente para perceber que, regra geral, estão escritos num “subgénero da ficção contemporânea”. As descrições dos produtos, dos serviços e dos consumidores são uma ficção, sem qualquer sustentação na realidade do mercado, um erro que, mais tarde ou mais cedo, será punido com o encerramento da actividade. A este propósito, é oportuno referir que um estudo, efectuado em 2007, sobre a mortalidade das empresas em Portugal, concluiu que apenas 47,1% das empresas mantinham a actividade no final do 3º ano.

Com uma mortalidade tão elevada, incentivar o empreendedorismo sem corrigir a miopia de visão dos promotores faz lembrar os pirómanos que ateiam os fogos pelo mero prazer de ver o seu poder destruidor. Parece que querem assistir à “beleza heróica da destruição do capital e da esperança, em consequência das actividades do empresário”, como escreve Botton *. Como acontece com as bulas dos medicamentos, também no empreendedorismo, a promoção deve referir as indicações e as contra-indicações, ou seja os casos em que o empreendedorismo não deve ser prescrito. Decididamente, não se pode continuar a promover o empreendedorismo, fazendo crer que a excepção é a regra e que tudo será cor-de-rosa.

* Alegrias e Tristezas do Trabalho, de Alain de Botton (2010)

Publicado na edição online do Diário de Notícias da Madeira, em 8 de Setembro de 2010.

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