O futuro pertence aos jovens que pensam à direita

Lembro-me como se fosse hoje. “Estuda para tirar boas notas. Tens de entrar na universidade e tirar um curso superior para seres alguém”. Durante a minha juventude ouvi este conselho vezes sem conta. Os meus colegas queixavam-se de ouvir o mesmo conselho. Parecia que os pais da minha geração tinham a mesma obsessão: ter filhos “doutores”.

Nessa altura, em Angola, na terra onde nasci e estudei, a escolha era reduzida. Após o liceu, os alunos com melhores notas a letras iam para direito e os que tinham melhores notas a ciências iam para medicina ou engenharia. O sonho dos pais era que os filhos fossem médicos, engenheiros ou advogados. Para alcançarem a terra prometida, composta por um bom emprego e uma vida feliz, as famílias faziam grandes sacrifícios para que os filhos entrassem para a universidade. No entanto, do longínquo ano de 1968 em que fui finalista do liceu, só uma parte dos meus colegas prosseguiu o sonho de ser “doutor”. Ir para a universidade implicava viajar para muito longe de casa dos pais, na melhor das hipóteses para Luanda, a algumas centenas de quilómetros, ou então para Lisboa ou Coimbra a alguns milhares de quilómetros. Por conseguinte, os custos das viagens, do alojamento e da alimentação atingiam montantes que não estavam ao alcance da maioria das famílias. Para apertar o crivo de entrada na meritocrática sociedade da classe média, mesmo os bons alunos tinham de fazer o exame de acesso à universidade o que implicava custos significativos para as famílias, pois estas acompanhavam os filhos na sua primeira saída de casa com o intuito de os apoiar na difícil etapa de entrar na universidade.

Fazendo uma retrospectiva, pode dizer-se que os pais viram recompensados os seus sacrifícios. Para a minha geração ter um curso superior foi, de facto, um passaporte para um emprego para a vida e uma carreira em sentido ascendente. Além disso, muitos conseguiram “ser alguém” para grande orgulho dos pais e das famílias. Passadas quatro décadas, pode dizer-se que a política de produzir advogados, médicos e engenheiros, ou “trabalhadores do conhecimento” como preferia chamar-lhes Peter Drucker, foi muito bem sucedida. Além de ter permitido quebrar o monopólio de privilégios da elite da época, permitiu também o acesso de pessoas das mais variadas origens sociais a melhores oportunidades profissionais.

Mais recentemente, com o endeusamento dos CEO nas capas das revistas o sonho de ser “doutor” alargou-se à área da gestão gerando uma corrida desenfreada às escolas de gestão. Do mesmo modo, o “boom” dos negócios milionários na Internet e a utilização generalizada dos computadores teve idêntico efeito na procura de licenciaturas na área das novas tecnologias.

Contudo, o sistema parece estar esgotado. O reinado dos “especialistas do conhecimento” cheios de títulos académicos que teve acesso a uma vida privilegiada parece ter acabado. Hoje, ter uma licenciatura não dá garantia de ser alguém na vida. Mais, não dá qualquer garantia de emprego, como se comprova pelo número crescente de licenciados que tão bem conhecem o desemprego e o trabalho precário sem quaisquer regalias sociais. Para muitos licenciados, pode mesmo dizer-se que têm o privilégio de não ter privilégios.

Neste contexto, a questão central é: esta situação é conjuntural ou estrutural? A resposta mais simples tem sido atirar a culpa para a globalização e para a actual crise financeira mundial e aguardar que, como por milagre, venham melhores dias. Para estes, o tempo é o melhor remédio. Acontece que, provavelmente, a explicação é bem mais complexa, pois o problema é estrutural, não resulta da actual conjuntura.

Daniel Pink explica o que está a mudar no livro “A Nova Inteligência”, que dedica a todos os que estão insatisfeitos com as suas carreiras ou descontentes com as suas vidas, aos pais que querem preparar os filhos para o futuro e, sobretudo, aqueles que seguiram os conselhos dos pais e se esforçaram por obter bons resultados nos sucessivos exames nacionais, cumprindo uma espécie de “examocracia”.

Utilizando as metáforas da Ásia e da Automatização, Pink defende que a era da informação está esgotada e está a ocorrer uma mudança para uma nova era, a era da concepção, onde a possibilidade de sucesso profissional pode ser avaliada com um diagnóstico com três questões. Primeira: Alguém, noutro país, pode fazer o mesmo mais barato? Segunda: Um computador pode fazer o mesmo mais rápido? Terceira: O que estou a oferecer é algo diferente que tem procura nesta era de abundância e que satisfaz necessidades imateriais e transcendentais?

Se as respostas às duas primeiras questões forem afirmativas o futuro profissional não será nada risonho. Na realidade, muito do trabalho especializado de colarinho branco está já a ser exportado para a Ásia a uma velocidade vertiginosa. É bem conhecido o outsourcing de produção de software para a Índia, mas o mesmo fenómeno está a ocorrer para a Rússia, o Egipto e, pasme-se, para o Gana em África. Devido ao milagre da fibra óptica e à redução dos custos de comunicações, o outsourcing regista um crescimento exponencial. A análise financeira de prestigiadas instituições financeiras americanas é realizada por MBA indianos. A pesquisa jurídica de grandes sociedades de advogados é feita por juristas indianos. Projectos de arquitectura de conhecidos ateliers da Califórnia são executados por arquitectos húngaros. Auditorias de contabilidade são realizadas por auditores filipinos. Exames médicos de grandes hospitais americanos são diagnosticados por médicos na Índia.

Por outras palavras, Pink conclui que “devido à Ásia, muitos detentores de MBA estão a transformar-se nos operários do século 21, pessoas que entraram num mundo profissional cheio de promessas para depois verem os seus empregos fugir para o estrangeiro”. Acresce que a Automatização também está a transformar o trabalho de médicos, de advogados e de engenheiros. Na medicina, o primeiro diagnóstico de exames médicos é feito por programas informáticos. Nos seguros de saúde o cálculo do risco é feito por computador. Na advocacia há serviços tradicionais, como os divórcios, que são prestados online. No desenvolvimento de software o exemplo da Appligenics é paradigmático. Esta empresa criou um software capaz de gerar 400 linhas de código em menos de um segundo, quando um programador experiente leva um dia a fazer o mesmo.

Por um lado, o trabalho está a ser exportado para a Ásia por ser “muito mais barato”. Por outro, o trabalho está a ser destruído porque com a Automatização é “muito mais rápido”. Então, o que fazer para resolver este problema estrutural?

Na visão de Pink “devemos desempenhar tarefas que não possam ser realizadas a custo menor do outro lado do mar, que os computadores não possam executar mais depressa e que satisfaçam as aspirações estéticas, emocionais e espirituais destes tempos de prosperidade”. Para o conseguir, aponta como caminho investir no desenvolvimento de 6 aptidões essenciais: design, história, sinfonia, empatia, diversão e sentido. Estas capacidades são essenciais para “ser alguém” na era da concepção e são capacidades humanas básicas que qualquer pessoa pode aprender a dominar.

A solução pode parecer simples mas o que está em causa é passar do raciocínio lógico, analítico, sequencial, funcional, literal e textual que caracteriza os trabalhadores do conhecimento, para um raciocínio simultâneo, estético, sintético, contextual, estético e emocional que caracteriza os criativos da era da concepção.

Em síntese, do pensamento dominado pelo cérebro esquerdo que constitui o ADN da formação dos trabalhadores do conhecimento temos de passar a privilegiar o pensamento do cérebro direito na formação dos profissionais do século 21. A nova geração de médicos, de advogados e de engenheiros tem de pensar à direita, tem de ter visão holística. Muitas universidades e instituições de educação que perceberam o desafio meteram mãos à obra. Os programas de mais de 50 universidades de medicina americanas estão a sofrer profundas alterações com a finalidade de formar médicos capazes de praticar uma medicina narrativa assente na história de vida do paciente. A Universidade Thomas Jefferson criou mesmo um “índice de empatia” para avaliar a eficiência dos médicos. Cerca de 240 universidades americanas criaram mestrados de escrita criativa e reformularam os seus programas de licenciatura, os quais passaram a integrar disciplinas de artes como o Design. Centenas de escolas americanas estão a seguir o mesmo caminho, num movimento que cresce em países como o Reino Unido e o Japão. Neste país, o Ministério da Educação está a implementar uma reforma do sistema educativo no sentido de encorajar aquilo que chama “educação do coração”.

Como pai, hoje, já não posso dar aos meus filhos o mesmo conselho que tantas vezes ouvi dos meus pais. O que lhes recomendo, mesmo que estejam desempregados, é que não invistam mais tempo e dinheiro em pós-graduações, especializações e mestrados, mesmo que sejam MBA de “grandes escolas” como Harvard, a grande catedral do pensamento à esquerda. O conselho que lhes dou é, tão simplesmente, se querem ser alguém na vida, pensem à direita.

Publicado na edição online do Diário de Notícias da Madeira de 14 de Abril de 2009

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