Ouçam os vossos filhos

Estou aqui sentado, no silêncio do meu quarto, incapaz de dormir. São seis da manhã e este é o período da minha vida que é suposto mudar-me para todo o sempre. Dentro de algumas semanas, concluirei o secundário e, neste momento, a universidade parece ser o único tema de discussão à minha volta… e detesto isso. Não se trata de não querer ir para a universidade, mas agrada-me pensar em fazer outras coisas que não me reprimam as ideias. Estava muito seguro daquilo a que queria dedicar o meu tempo, mas, segundo todos os que rodeiam, para se ter sucesso na vida é necessário tirar um doutoramento ou arranjar um trabalho enfadonho. A mim não me parece boa ideia dedicar todo o meu tempo a algo enfadonho ou sem sentido. Esta é a única oportunidade da minha vida. Caramba, é a única vida que vou ter e se não tomar uma decisão drástica, nunca terei possibilidade de a viver. Detesto que os meus pais ou os meus amigos me olhem com um sorriso quando lhes digo que quero seguir algo que não tem nada a ver com medicina ou negócios.

Por mero acaso, deparei-me com o vídeo de alguém que fala sobre as ideias que ando a remoer há já algum tempo e fiquei completamente eufórico. Se no futuro toda a gente quiser ser farmacêutico, talvez trabalhar na área da medicina deixe de ser considerado tão prestigiante. Não quero dinheiro, não quero ter um carro asquerosamente caro. Quero fazer algo significativo com a minha vida, mas raramente recebo o apoio de quem quer que seja. Pretendo apenas dizer-lhe que fez com que voltasse a acreditar que os meus sonhos se podem concretizar. Enquanto pintor, desenhador, compositor, escultor e escritor, agradeço-lhe profundamente a esperança que me deu. O meu professor de arte olha-me sempre com um ar espantado quando faço algo diferente. Uma vez virei a água de limpar pincéis por cima de um quadro que o meu professor tinha dito estar “completo e pronto para ser avaliado”. Meu Deus, se tivesse visto a cara dele! A escola impõe limites claros, mas eu quero libertar-me deles e concretizar ideias que me ocorram às três da manhã. Detesto pintar uns meros sapatos velhos ou umas árvores e desagrada-me a ideia de tirar uma licenciatura em arte. Desde quando é que a arte pode ser “avaliada”? Aposto que se o Pablo Picasso tivesse de entregar uma das suas obras a uma velha professora de arte, ela teria gritado de horror e tê-lo-ia chumbado. Perguntei ao meu professor se podia inserir uma escultura numa tela, entrelaça-las para que a minha escultura desse a sensação de que o quadro estava vivo e se acercava do espectador. Respondeu-me que não era permitido! Vou fazer um AP Art Studio no meu último ano e dizem-me que não posso criar arte tridimensional. É de loucos! Precisamos que pessoas como o senhor venham a New Jersey e dêem algumas conferências sobre esse coisa menosprezada chamada criatividade.

Custa-me ser brindado com sorrisos e sobrolhos franzidos de cada vez que digo que quero ser artista. Porque é que uma pessoa não pode fazer aquilo que adora? Será que a felicidade está numa mansão, numa televisão de ecrã gigante, no ver passar centenas de números enquanto nos encolhemos de medo quando o S&P baixa um ponto? Este mundo tornou-se um lugar sobrepovoado, temível e competitivo. Obrigado pelos dezanove minutos e vinte e um segundos de pura verdade. Do fundo do coração.

Carta de um estudante de New Jersey, publicada no livro “O Elemento”, escrita depois de ver o vídeo Ken Robinson afirma que as escolas matam a criatividade.

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