A hiper-qualificação não faz a diferença

Na minha juventude era frequente ouvir “estuda para teres boas notas pois os melhores alunos conseguem os melhores empregos”. Nessa altura, imperava entre os pais a convicção de que o futuro dos filhos dependia das boas notas. Terminar um curso com uma boa classificação era o passaporte para um emprego seguro e bem remunerado. Hoje, a realidade é bem diferente. Os pais, provavelmente, já não têm a mesma convicção. Os filhos, certamente, conhecem o que é a precariedade de emprego e as remunerações low-cost.

Na verdade, na última década, a economia tornou-se altamente competitiva obrigando as empresas a mudarem radicalmente os seus critérios de recrutamento. Antes, bastava aos marrões estudar com afinco, recorrendo às suas capacidades racionais, para estar entre os melhores e obter os melhores empregos. Hoje, esta capacidade de pensar excessivamente de acordo com as regras é de pouca utilidade para as organizações. Na era da criatividade, o recrutamento nas organizações modernas privilegia cada vez mais as capacidades do cérebro direito, ligadas à emoção, e menos as capacidades do cérebro esquerdo, ligadas à razão.

No seu livro “O mundo é plano”, Thomas Friedman põe o dedo na ferida ao defender que “o quociente de curiosidade e o quociente de paixão são mais importantes do que o quociente de inteligência”, ou seja, QC+QP>QI. É uma machadada no mito da inteligência e na racionalidade da economia e dos modelos de gestão. Durante décadas, os gurus das grandes universidades criaram a ilusão de que os seus modelos eram medicamentos milagrosos, sem nenhuma contra-indicação. Nesses modelos, de uma racionalidade a toda a prova, não havia espaço para a emoção. Nas teorias de gestão, razão não rima com emoção.

Na mesma linha de Friedman, Guy Kawasaki defende que um dos principais factores de sucesso das organizações é a contratação de “pessoas infectadas”, isto é, de pessoas que têm paixão e entusiasmo pelo que a organização faz e acreditam que podem mudar o mundo. Para Kawasaki, a universidade, a experiência e as boas qualidades são irrelevantes. O que faz a diferença é a paixão, não é a hiper-qualificação. É devido à ausência de paixão que considera “não existem piores pessoas para iniciar um negócio do que os MBA´s e os consultores”. Por outras palavras, para competir numa economia baseada na criatividade e inovação, não contrate qualificação, contrate paixão.

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