Há rostos sorridentes onde se escondem cobras

Antes de continuar preciso fazer uma confissão. Sou um mau psicanalista. Talvez seja bom no consultório. Mas quando estou solto na vida a virtude que marca a arte da psicanálise me abandona. A psicanálise é uma arte perversa. Ela se baseia na desconfiança. Não acredita nas aparências. Vê um sorriso e logo pergunta: ‘Que coisas sinistras esse sorriso está escondendo?’ Bachelard chegou a descrever um psicanalista como uma pessoa que, quando se lhe dão uma flor, logo pergunta: ‘Mas onde está o estrume?’

Sou mau psicanalista porque tenho a tendência de acreditar no rosto (me esquecendo de que um rosto é sempre uma máscara…). Foi assim que fui me relacionando com os funcionários do Dali, os garçons, os bar-men, os músicos, os cozinheiros, os ajudantes de cozinha. Eu achava que eram meus amigos. Todos sorriam para mim. Paguei muito caro a minha ingenuidade. Há rostos sorridentes onde se escondem cobras. Descobri, na minha pele, que a realidade não é a amizade. É aquilo a que Marx deu o nome de ‘luta de classes’.

In “Se sua cozinheira quiser cantar enquanto cozinha, não deixe…“, Rubem Alves

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