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Os licenciados são uma commodity?

21 Setembro, 2011

Em conversas com amigos costumo ouvir, com alguma frequência, “o meu filho/a não consegue emprego pelo que está a tirar o mestrado”. Sempre que ouço este desabafo ocorre-me a mesma dúvida: será que com o mestrado vai arranjar emprego com mais facilidade?

Para começar, convém lembrar alguns números que dão uma ideia clara da revolução em curso no mercado de emprego. Por um lado, o desemprego está a crescer tendo atingido os 12,4%, no 1º trimestre de 2011. Por outro lado, o número de empregos está a decrescer tendo-se registado uma redução de 139800 empregos, de 2003 a 2011. Acresce que, neste cenário de elevada redução de emprego, o nº de diplomados no ensino superior tem vindo a subir significativamente tendo registado um aumento de mais de 107% em 10 anos.

Neste contexto, a questão central que se coloca aos jovens licenciados é: o que devo fazer para melhorar a minha empregabilidade? Obviamente, as hipóteses são múltiplas. No entanto, antes de qualquer decisão é fundamental que cada um faça uma reflexão sobre o que pretende em termos de carreira: o que sou, o que quero vir a ser em termos pessoais e profissionais e o que devo fazer para o conseguir. Concluída a reflexão, para uns, a solução poderá passar por um mestrado mas, para outros, a solução será seguramente bem diferente.

Se a entrada na carreira exige a posse de mestrado então a decisão de o tirar está, indiscutivelmente, correcta. O mesmo se passa se a progressão na carreira exige a posse de mestrado. Contudo, este tipo de carreiras constitui um mercado de emprego de reduzida dimensão. Pelo contrário, o mercado de emprego de licenciados é bastante maior. A este propósito importa referir que o aumento exponencial de licenciados e de mestrados pós- Bolonha supera largamente a procura do mercado português. Mesmo que se atenue a crise actual, o mercado de emprego de licenciados continuará altamente competitivo pois todos os anos saem das universidades milhares de licenciados enquanto que a taxa de criação de empregos para licenciados tende a continuar reduzida. Em épocas de crise, a taxa pode mesmo ser nula ou negativa.

Como resolver esta inequação? Uma coisa é certa: ter um diploma do ensino superior não dá qualquer garantia de emprego. Então, qual é a solução para obter emprego? Esta é, provavelmente, a pergunta de um milhão de euros. Mas, sinceramente, não creio que haja a “resposta certa”. Cada caso é um caso.

Vejamos o que se passa no recrutamento de licenciados. Quando uma organização decide recrutar um licenciado o que está a fazer, na verdade, é contratar as suas competências para realizar determinado trabalho. Por exemplo, quando na imprensa aparece um anúncio de recrutamento em que o principal critério de selecção é a licenciatura em arquitectura estamos perante um recrutamento onde os licenciados são tratados como uma commodity. Por outras palavras, como é muito elevado o número de arquitectos disponíveis no mercado a remuneração oferecida pelo trabalho é muito baixa, um fenómeno bem conhecido da “geração à rasca”.

Contudo, nem sempre os licenciados são tratados como uma commodity. Vejamos duas situações bem conhecidas. A primeira ocorre quando as organizações pretendem recrutar os melhores alunos das melhores universidades. Como a procura é superior à oferta dessas universidades, as organizações tendem a oferecer remunerações aliciantes para atrair os melhores. A segunda ocorre quando as organizações pretendem recrutar licenciados privilegiando determinadas competências comportamentais. Nestes processos de recrutamento os critérios decisivos para obter o emprego são a atitude positiva,  a auto-motivação, a auto-confiança, a ética no trabalho, a capacidade de comunicação, a capacidade de resolução de problemas, a capacidade de trabalho de equipa, a criatividade, a flexibilidade e adaptabilidade à mudança e a resistência ao stress.

Em síntese, no actual mercado de emprego, o grande desafio para os licenciados é: ser ou não ser uma commodity, eis a questão. O desafio é demasiado complexo para pretender prescrever quaisquer receitas milagrosas. Pretendo, apenas, chamar a atenção para a crescente valorização pelas organizações das competências comportamentais, as quais podem fazer toda a diferença e melhorar, de facto, a empregabilidade dos licenciados.

1 Commodity é um termo de língua inglesa que significa mercadoria e é utilizado nas transacções comerciais de produtos de origem primária nas bolsas de mercadorias (Wikipedia).

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A hiper-qualificação não faz a diferença

17 Agosto, 2011

Na minha juventude era frequente ouvir “estuda para teres boas notas pois os melhores alunos conseguem os melhores empregos”. Nessa altura, imperava entre os pais a convicção de que o futuro dos filhos dependia das boas notas. Terminar um curso com uma boa classificação era o passaporte para um emprego seguro e bem remunerado. Hoje, a realidade é bem diferente. Os pais, provavelmente, já não têm a mesma convicção. Os filhos, certamente, conhecem o que é a precariedade de emprego e as remunerações low-cost.

Na verdade, na última década, a economia tornou-se altamente competitiva obrigando as empresas a mudarem radicalmente os seus critérios de recrutamento. Antes, bastava aos marrões estudar com afinco, recorrendo às suas capacidades racionais, para estar entre os melhores e obter os melhores empregos. Hoje, esta capacidade de pensar excessivamente de acordo com as regras é de pouca utilidade para as organizações. Na era da criatividade, o recrutamento nas organizações modernas privilegia cada vez mais as capacidades do cérebro direito, ligadas à emoção, e menos as capacidades do cérebro esquerdo, ligadas à razão.

No seu livro “O mundo é plano”, Thomas Friedman põe o dedo na ferida ao defender que “o quociente de curiosidade e o quociente de paixão são mais importantes do que o quociente de inteligência”, ou seja, QC+QP>QI. É uma machadada no mito da inteligência e na racionalidade da economia e dos modelos de gestão. Durante décadas, os gurus das grandes universidades criaram a ilusão de que os seus modelos eram medicamentos milagrosos, sem nenhuma contra-indicação. Nesses modelos, de uma racionalidade a toda a prova, não havia espaço para a emoção. Nas teorias de gestão, razão não rima com emoção.

Na mesma linha de Friedman, Guy Kawasaki defende que um dos principais factores de sucesso das organizações é a contratação de “pessoas infectadas”, isto é, de pessoas que têm paixão e entusiasmo pelo que a organização faz e acreditam que podem mudar o mundo. Para Kawasaki, a universidade, a experiência e as boas qualidades são irrelevantes. O que faz a diferença é a paixão, não é a hiper-qualificação. É devido à ausência de paixão que considera “não existem piores pessoas para iniciar um negócio do que os MBA´s e os consultores”. Por outras palavras, para competir numa economia baseada na criatividade e inovação, não contrate qualificação, contrate paixão.

A metáfora da educação

18 Julho, 2011

É frequente ouvirmos dizer que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Esta frase, rica de significados, é utilizada para fazer as mais variadas comparações metafóricas. A sua utilização generalizada tem a ver com o facto de as metáforas terem o condão de nos ajudarem a ver com clareza problemas que, até então, não tínhamos percepcionado. Nas palavras de Rubem Alves “metáfora é quando, olhando para uma coisa, vemos outra”.

Olhando para a saúde, imagine que quando surgiu a epidemia de gripe A, perante a falta de eficácia dos medicamentos, se tinha decidido melhorar os medicamentos existentes na convicção de que essa era a melhor solução. Nesse contexto, os decisores optaram por investir na utilização massiva de novas tecnologias na produção e administração dos medicamentos e na avaliação do desempenho dos trabalhadores da indústria farmacêutica, mantendo inalterada a composição química dos medicamentos. Felizmente, a solução adoptada foi outra. Para fazer face ao vírus da gripe A os decisores optaram por investir fortemente na descoberta de medicamentos para curar a nova doença.

Partindo do que se passa na saúde, façamos a comparação com o que se passa na educação. Perante o diagnóstico de que o sistema educativo enfrenta novos desafios, o que acontece? Em vez dos decisores se preocuparem em estudar os desafios do sistema educativo para descobrir novos caminhos para a educação, a opção tem sido, invariavelmente, investir fortemente na melhoria do actual sistema. Parece haver a convicção de que basta melhorar o sistema educativo, ou seja, consertar o que está mal. Nesse sentido, nos últimos anos, os decisores optaram por investir massivamente em novas tecnologias para a educação e na avaliação de desempenho dos professores. Quem não se lembra dos objectivos vanguardistas do Plano Tecnológico da Educação e do Magalhães, assim como do famigerado modelo de avaliação de desempenho dos professores?

O problema é que o sistema educativo tem reagido mal a esta medicação e os problemas alastram a olhos vistos minando a motivação dos professores, a criatividade dos alunos e a esperança das famílias. Decididamente, uma metáfora vale mais do que mil imagens.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 17 de Julho de 2011.

Os portugueses e a Síndrome de Estocolmo

2 Junho, 2011

Em 1973, Nils Bejerot enriqueceu o léxico clínico com a Síndrome de Estocolmo. Este psiquiatra, que também era um prestigiado criminologista, colaborou com a polícia durante os seis dias do assalto ao banco Kreditbanken. A experiência permitiu-lhe constatar que as vítimas do sequestro, apesar da situação de risco de vida, tinham desenvolvido um estado psicótico que se manifestava por sentimentos de lealdade para com os sequestradores. Mais tarde, durante o julgamento dos sequestradores, constatou que as vítimas continuavam a manifestar esses sentimentos.

Para os especialistas, os sintomas associados à síndrome surgem sem que as vítimas tenham consciência e resultam de um stress emocional e físico extremo. Assustadas, com medo da violência e de retaliações, as vítimas adoptam estratégias de sobrevivência tentando identificar-se emocionalmente com o sequestrador e conquistar a sua simpatia. A identificação emocional visa conseguir o afastamento emocional da situação de perigo que vivem, mantendo-se, no entanto, alerta para o perigo de modo a tentar escapar ao sequestro se surgir uma oportunidade.

Assim, o desenvolvimento da síndrome resulta de um complexo processo entre o sequestrador e a vítima. Neste processo, as vitimas não conseguem ter uma visão clara da realidade. Se o sequestrador manifestar atitudes de simpatia pode gerar comportamentos de identificação afectiva nas vítimas que contrastam com os sentimentos de ódio que, em simultâneo, sentem pelo sequestrador. Por outras palavras “quanto mais me bates mais gosto de ti”, pois esta síndrome também se desenvolve noutras situações de extrema tensão como são os casos de violência doméstica.

Ao reflectir sobre este estado psicótico ocorreu-me, naturalmente, a situação que se vive hoje em Portugal. Há cerca de dois anos que os portugueses estão sequestrados por uma política de asfixia económica, financeira e social, cujas medidas os colocaram numa situação de tensão extrema. De facto, os portugueses estão reféns, incapazes de ter uma visão clara do impacto nas suas vidas das medidas dos PECs e da Troika. Com medo das violentas medidas é natural que a sua única preocupação seja a luta pela sobrevivência. Nessa luta, se os sequestradores lhes falarem com simpatia “vendendo a ilusão” podem gerar-se nos portugueses comportamentos de identificação afectiva e de lealdade para com os responsáveis pelo sequestro político.

Este comportamento psicótico pode ser decisivo nas eleições do próximo dia 5 de Junho. Perante a gravidade da situação, os portugueses sentem-se encurralados, vítimas do desemprego galopante, do aumento brutal de impostos e do desmoronamento do estado social. Neste contexto, será que os portugueses vão manifestar, de novo, lealdade para com os sequestradores? Ou, pelo contrário, ainda não perderam a esperança num futuro melhor e vão procurar a liberdade?

Sorria, está a ser manipulado

18 Maio, 2011

Portugal vive um período de crise financeira, económica, social e política sem precedentes. Neste contexto, os portugueses vão ser chamados a votar para escolher um novo governo. Tudo indica que a campanha eleitoral será bastante disputada, com promessas sedutoras para conquistar o voto dos portugueses. Para estes, a questão central é: em quem vou votar? A resposta será dada por cada português nas urnas. Aqui, irei apenas abordar o modo como se toma a decisão de votar.

Para tal vou socorrer-me de uma experiência descrita por Jonah Lehrer no livro “Como Decidimos”. Nessa experiência, os neurocientistas Knutson e Loewenstein analisaram a actividade cerebral de dezenas de estudantes durante uma série de decisões de compra. No final, os cientistas concluíram que sempre que o negativismo da ínsula superava as sensações positivas do NAcc (nucleus accubens), o estudante optava por não comprar. Pelo contrário, sempre que o NAcc estava mais activo do que a ínsula, ou se o córtex pré-frontal estava convencido que se tratava de uma pechincha, o estudante não resistia à compra. Conhecendo isto, o que fazem as lojas modernas? Recorrem a técnicas cujo objectivo é a manipulação psicológica dos consumidores. A estratégia das lojas passa por agir no sentido de incentivar o NAcc e, ao mesmo tempo, inibir a ínsula.

Mas, o que é que isto tem a ver com a decisão de voto? Segundo os neurocientistas, tem muito. Nas campanhas eleitorais, há muito que os especialistas em marketing político utilizam a mesma estratégia das lojas. Assim, as promessas de milhares de empregos têm o condão de activar o NAcc dos eleitores e as garantias de que não haverá aumento de impostos têm o efeito de inibir a ínsula.

Dito isto, será que quem seguir o apelo do Presidente da República e fizer uma “Política de Verdade”, dizendo que o desemprego vai continuar a crescer e que vamos viver uma década de grandes dificuldades, consegue ganhar as eleições? Provavelmente, não. O que decide as eleições é a emoção não é a razão.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 17 de Maio de 2011

A unanimidade é burra

18 Abril, 2011

A saga do PEC continua e já vai na 4ª edição. A receita para combater a crise é sempre a mesma: crescimento, crescimento, crescimento e crescimento. Da estabilidade já nem se fala tal a devastação provocada pelo tsunami financeiro. O que importa é falar de crescimento económico. Economistas, empresários, analistas, políticos, em suma, todos, parecem acreditar que só há uma solução para a crise, o crescimento económico. A sociedade está dependente deste mito. Ninguém se atreve a questionar. A unanimidade é total. Mas, como concluiu Solomon Asch nas suas investigações sobre o comportamento humano, “a unanimidade é burra”. Quando todos seguem “a verdade” dominante é porque ninguém pensa.

Felizmente, há sempre alguém que diz não. Há sempre quem arrisca pensar de modo diferente e decide explorar novas ideias e procurar caminhos alternativos. Foi o que fez Tim Jackson no seu livro “Prosperidade sem Crescimento: economia para um planeta finito”, publicado em 2009, onde defende que o actual modelo económico e financeiro é insustentável. A crise que enfrentamos não se resolve com planos de crescimento, “resolve-se saindo dela ou seja do modelo de vida que a produz e que lhe é inerente”.

Segundo Jackson, a visão do mundo assente no paradigma do crescimento contínuo é insustentável pois coloca em risco os frágeis ecossistemas que são essenciais para a nossa sobrevivência a longo prazo. Para termos uma ideia da urgência em conseguir uma economia de baixa emissão de carbono basta dizer que, em 2050, num mundo com 9 mil milhões de pessoas, ou seja mais 50% do que em 2000, a intensidade das emissões de carbono deverá ser 130 vezes menor.

Para o autor e Presidente da Comissão para o Desenvolvimento Sustentado do Reino Unido a saída da crise não passa por acabar com o crescimento mas sim por redefinir a noção de prosperidade. Na mesma linha, o Nobel da Economia Amartya Sen defende que “é necessário redefinir a riqueza e a prosperidade com base nos parâmetros da capacidade de florescimento. O florescimento define-se como ter o suficiente para comer, ser parte de uma comunidade, ter um emprego que valha a pena, uma moradia decente, acesso a educação e serviços médicos”. Por outras palavras, prosperidade é ter um papel na sociedade, em vez de ter muito para viver. É a busca do ter pelo ter da actual sociedade que gera a espiral consumista que sustenta o mito do crescimento.

Muitos economistas, como Jackson, afirmam que estamos perante o Dilema do Crescimento. Não podemos viver sem ele, mas também não podemos viver com ele. Por um lado, o crescimento está a esgotar os recursos e a gerar emissões de carbono tão altas que comprometem o futuro. Por outro lado, não assegura a prosperidade das pessoas. Apesar do crescimento mundial verificado na última década, à taxa de 3-4%, cerca 40% da população, ou seja 2,7 mil milhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por dia.

Qual o caminho a seguir? Não sei. Mas sei que não acredito nos PEC. Acredito, apesar de tudo, que vamos encontrar a saída da crise. Entretanto, resta-me o sonho da prosperidade compartilhada e duradoura.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 17 de Abril de 2011.

O fim da globalização?

18 Março, 2011

Quando, em 2000, no Clube do Petróleo de Calgary, Jeff Rubin fez a previsão de que o petróleo iria atingir os 50 dólares no prazo de 5 anos, a plateia sorriu com desdém e não levou a sério a sua profecia. Na altura, o petróleo tinha atingido um pico de 30 dólares depois de uma década em que a cotação se tinha mantido estável no patamar dos 20 dólares.

Em 2005, quando Rubin voltou a discursar no Clube do Petróleo este já tinha atingido os 50 dólares. No entanto, a plateia voltou a mostrar o mesmo desprezo pela previsão de que o petróleo iria atingir os 100 dólares, no prazo de 3 anos. Na verdade, no verão de 2008, o petróleo atingiu os 147 dólares caindo depois para o patamar de 40 dólares, o dobro do anterior patamar.

Em 2009, Rubin insiste nas suas previsões catastróficas e publica o livro “Porque é que o seu mundo vai ficar muito mais pequeno”. Na apresentação do livro, em Portugal, previu mesmo que o petróleo poderá atingir os 225 dólares em 2012, ou seja um aumento de mais de 1.100% numa década.

Para termos uma ideia do impacto em Portugal, basta dizer que o aumento do preço do petróleo levou a que a factura energética tivesse crescido exponencialmente de 3 mil milhões de euros em 2005 para 7 mil milhões em 2009, ou seja, mais do que duplicou em 4 anos. Pelas mesmas razões, este ano poderá ocorrer novo desvio exponencial, pois o Orçamento para 2011 foi construído no pressuposto de que o preço médio do petróleo seria de 78 dólares quando a cotação já ultrapassou os 119 dólares no segundo mês de 2011. Mais, não se vislumbra onde irá parar a cotação dada a possibilidade da Líbia e da Argélia suspenderem as exportações.

No livro, além de prever a escalada contínua do preço do petróleo, Rubin vai mais longe e faz uma surpreendente previsão: o fim da globalização. Para Rubin, “a globalização é um modelo fantástico quando o custo dos bens móveis é muito baixo”. Com o petróleo a 20 dólares, fazia sentido deslocalizar a produção para qualquer parte do mundo onde os custos da mão-de-obra fossem mais baratos. Com o petróleo acima dos 100 dólares isso deixa de fazer sentido. Agora a distância custa muito dinheiro. O que se poupa em custos salariais gasta-se no transporte dos produtos. Depois da panaceia “pensar local, agir global” parece que vamos retornar à economia regional.

Segundo Rubin “temos de mudar de vida pois a economia global queima demasiado petróleo. Se não mudarmos, se continuarmos com este modelo de economia, o que vai acontecer é que cada vez que houver uma retoma económica o preço do petróleo sobe e vamos entrar de novo em recessão. E, de cada vez, a recessão será pior. É o fim da economia global. É o fim da globalização”.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 17 de Março de 2011.

Eu não tenho um plano

17 Fevereiro, 2011

Durante meses o país andou obcecado com o plano e orçamento para 2011. Das notícias matinais até ao último telejornal, passando pelas conversas de circunstância no trabalho e na rua, não se falava de outra coisa. O debate político que diariamente nos entrava em casa resumia-se a uma das partes dizer “eu tenho um plano” (para vencer a crise) e as outras partes responderem, em uníssono, “o plano não presta, o meu é melhor do que o teu”.

Como se não bastasse essa obsessão com o orçamento, logo de seguida as partes envolveram-se no debate “eu tenho um PEC 1” e “o PEC 1 não presta, o meu é melhor do que o teu”. E a história repetiu-se, ipsis verbis, com “eu tenho um PEC 2” e “o PEC 2 não presta, o meu é melhor”. Por este andar, não será de estranhar se a história se repetir com o FMI 1 e assim sucessivamente. É caso para dizer que não há vida para além do orçamento ou, se preferirem, dos Planos de Estabilidade e Crescimento (PEC). Será que o futuro de Portugal e dos portugueses depende, apenas e tão só, de planos?

Esta questão fez-me recordar o activista político Martin Luther King. Provavelmente, muitos se recordam da sua emblemática frase “eu tenho um sonho” que arrastou multidões de negros americanos. Esta simples frase teve o condão de despertar a população negra e fazê-la acreditar que era possível lutar por um sonho, por um ideal que muitos consideravam utópico. Imaginem, por um momento, que a história era outra. Imaginem que, para conquistar a igualdade de direitos civis para os negros, Luther King tinha escolhido a frase “eu tenho um plano” como mensagem mobilizadora do seu discurso, pronunciado em 28 de Agosto de 1963. Mais, imaginem que terminava o discurso com “eu tenho um plano 1, mas se não alcançarmos o objectivo “eu tenho um plano 2”. Na verdade, Luther King não perdeu tempo a falar das virtudes de qualquer plano, falou apenas da alma do seu “plano”, o sonho de liberdade e justiça dos negros americanos.

Eu, também, não tenho um plano. Tenho, apenas, um sonho. Que a “geração Deolinda”, a geração dos meus filhos, tenha um futuro melhor.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 16 de Fevereiro de 2011

A ilusão da Qualificação

18 Janeiro, 2011

Com a publicação, em Julho de 2009, das Portarias que regulam o Quadro Nacional de Qualificações, o Catálogo Nacional de Qualificações e a Caderneta Individual de Competências, ficou concluído o Sistema Nacional de Qualificação previsto no Acordo para a Reforma da Formação Profissional, de Março de 2007.

O Acordo definia metas ambiciosas, envolvendo a mobilização alargada de instrumentos, políticas e sistemas, com a finalidade de tornar a estratégia de qualificação da população portuguesa, assim como a promoção da aprendizagem ao longo da vida, uma verdadeira prioridade nacional. Neste contexto, não é de estranhar que a Iniciativa Novas Oportunidades tenha crescido exponencialmente e se tenha tornado a bandeira nacional do combate às baixas qualificações. Oficialmente, o grande desafio da INO é bem claro: elevar rapidamente os níveis de qualificação dos portugueses e tornar o 12º ano no nível de escolaridade de referência.

Contudo, apesar do mérito da Iniciativa Novas Oportunidades, há duas questões que devem ser reflectidas: Elevar a qualificação é suficiente para preparar os portugueses para os desafios do crescimento? Qual é, de facto, o impacto na produtividade e na competitividade de Portugal resultante do aumento de mais um milhão de certificados de qualificação?

Por outro lado, quanto à prioridade da promoção da aprendizagem ao longo da vida, pouco se ouve falar, secundarizada pela bandeira da qualificação. No entanto, importa recuperar esta prioridade e concretizar a implementação de medidas como a carteira individual de competências, pois a competência traduz acção, enquanto a qualificação é mera declaração. Será que faz sentido, num mundo caótico, inovador e altamente competitivo, onde as funções dos trabalhadores se alteram constantemente, continuar a pensar apenas na óptica da qualificação, assente em catálogos de qualificações cujos referenciais rapidamente se tornam obsoletos? Será que o certificado de qualificação é uma garantia de que os portugueses vão ser mais competentes? Provavelmente, é uma ilusão. Para desenvolver as competências dos portugueses não basta a qualificação. É preciso, também, que os portugueses queiram agir e que os modelos de gestão não sejam uma força de bloqueio à criatividade, à inovação e ao empreendedorismo. E, acima de tudo, é essencial que acreditem no futuro.

“Tudo está pensado em termos de qualificação quando o que importa é o modelo de gestão”, Gary Hamel.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 17 de Janeiro de 2011.

Não sei

20 Dezembro, 2010

Antes de mais, confesso, não sei. Ao contrário daqueles que têm o dom de tudo saber e de nunca terem dúvidas, confesso que ao escrever me ocorrem inúmeras dúvidas e questões. Muitas vezes, a única resposta que tenho, como acontece com os maus alunos, é um rotundo não sei. Para mim, escrever é um exercício de aprendizagem. O importante não é confirmar as verdades absolutas do statu quo, mas questionar se não haverá outros caminhos, outras soluções, outras ideias para fazer face aos actuais desafios.

No seu comentário televisivo do passado domingo, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que o mundo enfrenta novos desafios e que os líderes europeus, pura e simplesmente, não sabem o que fazer. A crise financeira está há três anos na ordem do dia e a resposta é “não sei”. O desemprego cresce diariamente e a resposta é “não sei”. A pobreza e a fome alastram e a resposta é “não sei”.

Provavelmente, os que acreditam que os líderes deveriam ter as respostas certas para os grandes problemas sociais estarão desiludidos com as políticas seguidas. Acontece, no entanto, que a globalização e as tecnologias tornaram o mundo muito mais complexo e vertiginoso. O tempo em que os líderes conseguiam prever e antecipar a mudança acabou. Hoje, a única certeza é a incerteza de uma mudança caótica. Tudo parece desmentir as previsões dos líderes. Anunciam a criação de postos de trabalho, aumenta o desemprego. Anunciam a sustentabilidade das pensões, aumenta a idade de reforma. Anunciam o PEC1 e o PEC2, aumenta o défice. Anunciam o fim da crise, entra o FMI.

Entretanto, os problemas continuam sem solução e alastram-se por contágio. É altura de reconhecer, com humildade, não sei. Para enfrentar os novos desafios não vale a pena insistir nas velhas soluções. É tempo de dizer “não sei” e de mobilizar os cidadãos para se empenharem, colectivamente, na construção de novos caminhos. Como dizia Chico Xavier “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim”.

“Não estou à espera que concordem com tudo o que eu diga. Mas espero que quando discordarem, discordem zangados. Que fiquem tão lixados, que façam alguma coisa”, Tom Peters.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 17 de Dezembro de 2010.