Posts Tagged ‘jose pacheco’

Suspeito que existe alguma analogia entre o banho de sol dos presidiários e o recreio dos alunos

4 Setembro, 2012

Jardins de infância precocemente escolarizam a infância, instituindo rotinas, nas quais todas as crianças devem começar a dormir ao mesmo tempo, ainda que não tenham sono (e, frequentemente, “embaladas por crews, sertanejos e bandas sonoras de novelas…).

À revelia das descobertas da cronobiologia, as escolas mantêm rituais de horário fixo, como a hora de entrar e de sair, ou os cinquenta minutos de uma aula, que quase ninguém sabe explicar por que são cinquenta… E, entre dois toques de sirene, se anuncia que todos poderão ir ao recreio, ao mesmo tempo. Venho suspeitando de que existe alguma analogia entre o banho de sol dos presidiários e o recreio dos alunos… Ao mesmo tempo, todos deverão estar olhando a nuca do colega da frente. Ao mesmo tempo, todos devem merendar, todos devem fazer xixi no mesmo período de tempo.

Já alguém se perguntou se terá sido sempre assim? Desde o século XVIII, não existe sequer uma teoria que sustente o modelo de escola, que, no nosso tempo, ainda é hegemónico.

In “A mosca de Aristóteles”, José Pacheco

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O professor não transmite aquilo que diz, transmite aquilo que é

30 Julho, 2012

Em pleno século XXI, ainda são muitas as escolas onde se “dá aula”, na ignorância de que a aula é algo obsoleto e de que há muitos outros modos de ensinar e de aprender. Mas, no século XIX, num tempo em que já se questionava se seria possível ensinar a todos como se fosse um só, o Eça das Conferências do Casino escrevia: As crianças, enfastiadas, repetem a lição, sem vontade, sem inteligência, sem estímulo. O professor domina e põe todo o tédio da sua vida na rotina do seu ensino.
In “Alice no Parque Jurássico”, José Pacheco

Fui para professor por vingança – vídeo

22 Julho, 2012

Apelo a que os pais desobedeçam aos ditadores da educação

21 Julho, 2012

Fonte: Pontes Visão

É nefasta a avaliação que hierarquiza e divide os professores

15 Junho, 2012

Educare: A avaliação dos professores tem estado no centro de grande contestação e polémica. Concorda com o modelo proposto pelo Ministério da Educação?
JP: Não quero fazer coro com a maioria, mas só poderei estar em desacordo.
Não me alongarei na resposta, nem exporei o ridículo da proposta. Direi somente que, também na Ponte, a “avaliação” proposta pelo ME não faz sentido. É nefasta uma avaliação que hierarquiza e divide (ainda mais) os professores.
In “A medida de política educativa de maior impacto seria a extinção do Ministério da Educação”, Entrevista a José Pacheco

A escola integrada na comunidade é uma treta

28 Maio, 2012

Conheço tantos educadores prenhes de sonho e bondade, gente que encontro, quando já penso não haver mais para encontrar, e que seriam bem capazes de inverter o destino da escola. Tanta bondade desperdiçada, tantos sonhos assassinados, que até dói!

Continuo sem entender por que razão muitas escolas erguem barricadas, quando as imperfeitas instituições que as inspiraram já denotam alguma abertura à sociedade. Vivemos ainda o tempo da proto-história da humanidade. Mas a demanda civilizacional já levou a que até mesmo nas prisões soprassem ventos de liberdade e que muitos quartéis já fossem transformados em pousadas para turistas. O que leva as escolas a fecharem-se na concha da autossuficiência, a refugiar-se atrás de muros protegidos por guardas, como um condomínio fechado?

Temos escolas habitadas por excelentes profissionais. Porém, se alguns consentem que a degradação os degrade, outros desistem. Agito-os, desassossego-os, mas respondem:

– ‘Tens razão, é preciso mudar esta escola ensimesmada, que só produz insucesso, exclusão, violências… Mas eu tenho medo de errar.’

In “Herrar é umano”, José Pacheco

Não se combate o abandono escolar com muros e regulamentos

23 Maio, 2012

Numa cidade brasileira, agentes da autoridade deram caça a alunos que “matavam aula” (expressão brasileira para gazeta). Capturaram-nos nos parques e nas ruas, ao estilo do bedel de outros tempos. De um lado, professores esforçados e sofridos, dando aula numa escola sem sentido; de outro, matadores de aula, que não as querem receber. Pelo meio, a caça aos matadores e a instalação de catracas.

Para evitar fugas, ou impedir intrusões, muitas escolas completam a catracalização com a instalação de detector de metais, câmaras de vigilância e sofisticados aparelhos de leitura das impressões digitais. Ainda há quem creia que a conversão dos matadores de aula pode ser alcançada vigiando, punindo, tentando transmitir informação moral. Que se desenganem: os valores são construídos em práticas efetivas. Se o “matador” se sentir respeitado, se o vivido entre muros fizer sentido, verá significado em permanecer na escola. Se o não for, que motivos terá para não “matar”?

In “Descatracalizar”, José Pacheco

Em educação, não existe neutralidade

26 Abril, 2012

Velha e quase inútil, a Escola agoniza. Os sucessivos ministérios vão-lhe aplicando pensos rápidos. Os corporativismos vão-lhe injectando morfina. Talvez porque a eutanásia seja proibida, ninguém ponha cobro ao sofrimento. A quem convém que a escola se mantenha em vida vegetativa? Em educação, não existe neutralidade. Se aqueles que reproduzem práticas bolorentas se interrogassem e procurassem saber a que senhor estão servindo, talvez chegassem à compreensão das perversões a que as suas práticas conduzem. Talvez viessem a compreender, por exemplo, que o tipo de gestão do tempo, que a sua escola adopta (idêntico ao de milhares de outras escolas) restringe o desenvolvimento de relacionamentos sociais e intelectuais saudáveis. Talvez viessem a compreender o que Henry Giroux, há muito escreveu: “com os seus cronogramas e relacionamentos hierárquicos, a rotina da maior parte das salas de aula actua como um freio à participação e aos processos democráticos”.

In “Estatísticas, abstracções, interrogações

Só falta salvar a escola

21 Abril, 2012

Não basta assegurar o direito à inclusão, é preciso assegurar a inclusão

11 Abril, 2012

No decurso de um congresso, alguém que eu muito respeito (e trabalha no MEC), afirmou: A organização em séries não combina com Inclusão. Ela viu, claramente visto, o logro de uma inclusão de fachada. Mas há quem não queira ver.

Todas as escolas incorporaram a “inclusão” no discurso. Na prática, são escolas inclusivas não-praticantes. A “olhómetro”, a tia arriscou a sentença: A sua filha deve ser disléxica. Leve-a a um psicólogo. Depois de muito dinheiro gasto na psicóloga, a mãe da Rita entregou um relatório à professora. A psicóloga recomendava que se ajudasse a aluna a elevar a sua auto-estima. Na prova seguinte, a vermelho, a Rita recebeu da tia a sua primeira “ajuda”: Tens de estudar mais. Assim nunca vais conseguir passar de ano.

A mãe insurgiu-se, protestou. No ano seguinte, a Rita foi transferida para outra escola, porque… “não havia vaga”. O discurso que apela à integração dos diferentes nas escolas ditas regulares não basta. Não basta assegurar o direito à inclusão; é preciso assegurar a inclusão. A sabedoria popular tem sempre razão: o pior dos cegos é aquele que não quer ver.

In “Vermelho como o céu“, José Pacheco