Eu não tenho um plano

Durante meses o país andou obcecado com o plano e orçamento para 2011. Das notícias matinais até ao último telejornal, passando pelas conversas de circunstância no trabalho e na rua, não se falava de outra coisa. O debate político que diariamente nos entrava em casa resumia-se a uma das partes dizer “eu tenho um plano” (para vencer a crise) e as outras partes responderem, em uníssono, “o plano não presta, o meu é melhor do que o teu”.

Como se não bastasse essa obsessão com o orçamento, logo de seguida as partes envolveram-se no debate “eu tenho um PEC 1” e “o PEC 1 não presta, o meu é melhor do que o teu”. E a história repetiu-se, ipsis verbis, com “eu tenho um PEC 2” e “o PEC 2 não presta, o meu é melhor”. Por este andar, não será de estranhar se a história se repetir com o FMI 1 e assim sucessivamente. É caso para dizer que não há vida para além do orçamento ou, se preferirem, dos Planos de Estabilidade e Crescimento (PEC). Será que o futuro de Portugal e dos portugueses depende, apenas e tão só, de planos?

Esta questão fez-me recordar o activista político Martin Luther King. Provavelmente, muitos se recordam da sua emblemática frase “eu tenho um sonho” que arrastou multidões de negros americanos. Esta simples frase teve o condão de despertar a população negra e fazê-la acreditar que era possível lutar por um sonho, por um ideal que muitos consideravam utópico. Imaginem, por um momento, que a história era outra. Imaginem que, para conquistar a igualdade de direitos civis para os negros, Luther King tinha escolhido a frase “eu tenho um plano” como mensagem mobilizadora do seu discurso, pronunciado em 28 de Agosto de 1963. Mais, imaginem que terminava o discurso com “eu tenho um plano 1, mas se não alcançarmos o objectivo “eu tenho um plano 2”. Na verdade, Luther King não perdeu tempo a falar das virtudes de qualquer plano, falou apenas da alma do seu “plano”, o sonho de liberdade e justiça dos negros americanos.

Eu, também, não tenho um plano. Tenho, apenas, um sonho. Que a “geração Deolinda”, a geração dos meus filhos, tenha um futuro melhor.

Publicado no Diário de Notícias da Madeira em 16 de Fevereiro de 2011

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Uma resposta to “Eu não tenho um plano”

  1. oscarfaria Says:

    Mais um excelente artigo, Parabéns!!!

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